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O que faz o artista quando as cortinas se fecham?

Muitos pensam que o trabalho do artista consiste apenas em sua apresentação. Poucos sabem os desafios, as rotinas e esforços diários para elaborar obras de arte singulares.

Recentemente, li alguns comentários na internet que me provocaram distintas reflexões. Um internauta postou em uma rede social o seguinte comentário: “(...), mas artistas não fazem nada, tocam uma música ou outra, falam um texto e ganham milhões (...). ” Bem, essa colocação poderia ser discutida a partir de várias perspectivas, porém, é necessário pensar de que artista ele está falando? Considero importante frisar que artista nenhum ganha milhões, pelo contrário, artistas ganham o mínimo para viver, com raras exceções que conseguem se inserir na cultura de massa e, como figura pública, encher os bolsos com trabalhos publicitários. O artista não enriquece vendendo seu trabalho, se entendermos o enriquecer atrelado ao seu sentido econômico-monetário vigente em nossa sociedade. O que o artista enriquece de fato é seu espírito ao fazer aquilo que ama, criar.

Longe de aprofundar a discussão entre artista e mercado cultural, pretendo falar sobre os artistas da vizinhança, isto é, artistas regionais, profissionais dos mais variados segmentos artísticos que tentam viver de sua arte.

Nesse sentido, o artista vai além de suas apresentações. Se formos olhar o artista teatral, ele depende de um cronograma rígido de planejamento para elaborar um espetáculo teatral com refinamento estético-simbólico. A sua obra começa na ideia, no desejo e na vontade. Assim, é trilhado um longo caminho de pesquisas, estudos e práticas até atingir aquilo que se almeja. Vale ressaltar que a arte, por se tratar de uma das ciências humanas, também dialoga e possui em sua essência, forte relação com filosofia, sociologia, antropologia, entre outras áreas de conhecimento que solicitam do artista uma percepção ampliada e um extenso trabalho que consiga demonstrar toda a potência de sua arte com demais vertentes de conhecimento.


Prestigiar um espetáculo teatral é se deparar com o resultado de um processo extenso de pesquisas, ensaios, leituras e debates que tornaram aquele momento possível. O artista do teatro leva anos para construir um espetáculo. O texto dramático, por exemplo, é elaborado através de uma prática diária que pode durar meses e até mesmo anos. Após a elaboração do texto, temos o encontro com atores, produtores, cenógrafos, figurinistas e demais envolvidos na criação teatral. Neste momento, discussões que circundam o eixo temático da obra são levantadas, acionando a percepção para discussões de cunho filosófico, social, etc.

O artista é acionado a sair de sua zona de conforto a todo momento. O mundo em movimento solicita um artista movimento, que além de dominar as técnicas de seu ofício, esteja inteiramente ligado as mudanças políticas, sociais e culturais de seu tempo. Por isso, quando as cortinas se fecham, o artista coloca o despertador para a 06:00 e se prepara para mais um período de estudos, pesquisas e trabalhos.


Victor Emanuel Carlim é professor de teatro, pesquisador, diretor e ator. Mestre em Artes pela UNESPAR Campus II FAP e Formado em Licenciatura em Teatro pela mesma universidade.

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