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Oficina de Teatro e Circo no Centro da Juventude Eucalipto

Atualizado: Mai 4

Por Victor Carlim

A oficina iniciou em uma pacata noite no mês de setembro. Ao chegar no centro pude notar uma estrutura impecável com materiais de sobra para produzirmos aulas confortáveis. A partir das dezoito horas os alunos foram chegando. Tímidos a procura dos cantos da sala, à espera da chamada e do convite do professor.

Meu primeiro gesto é convidá-los para uma roda. Nós das artes e em específico do teatro-educação temos esse costume. Uma roda. Roda é um ritual de partilha e troca, onde nossa energia circula e podemos ouvir e sentir cada integrante do grupo. Meu primeiro questionamento foi: “Qual sua comida favorita? O que você realmente gosta? O que é teatro para você? ” Creio que essas perguntas são fundamentos do meu trabalho. A partir disso eu conheço os afetos, os desejos e as expectativas. Vou trilhando a conversa e a aula nesse caminho.

A turma é diversa. Há uma quantidade variável de meninos e meninas. A oficina foi ofertada para jovens e adolescentes, mas alguns pais pediram para que seus filhos pré-adolescentes participassem. Eu aceitei. Percebi o desafio nesse momento. Propor uma oficina que fizesse sentido para os mais velhos e mais novos, e mais do que integrá-los nas aulas, o objetivo era inclui-los.

Eu trabalho com práticas de grupo, utilizo o som como um modulador do ritmo e da energia da aula, e confesso, foi uma turma com energia do começo ao fim! Uma grata surpresa ver uma turma disponível em todas as aulas. Lembro que nas primeiras semanas começamos com onze ou doze alunos. Tive a desistência de apenas uma. Elis o nome dela. Percebi que essa desistência surgiu devido a carga horária puxada do seu dia com trabalho e estudos, e um pouco de aversão as propostas corporais das minhas aulas de teatro.

Próximo ao meio da oficina, a turma contava com quase quinze participantes, meninos e meninas que aprenderam a importância da concentração, atenção, percepção e escuta. O desafio mora aí também, mostrar para o ser humano que mais do que utilizarmos o instrumento vocal, o importante é utilizarmos a nossa escuta. Seja ela pelo caminho dos ouvidos, do tato, da respiração.

As minhas aulas procuram não seguir formatos para não evidenciar as estruturas e técnicas que manipulam o ofício teatral. Eu adoto formas e conteúdo que vão se moldando pela minha percepção no corpo ambiente. Por muitas vezes eu estava disposto a propor aulas de criação através de discussão de coisas que os alunos têm no repertorio, mas a energia do grupo demandava para exercícios corporais e jogos teatrais que fortalecessem o encontro e a criação pelo corpo. Então nada do que eu preparo é sólido como pedra, mas adaptável como um camaleão.

A oficina carregava o título de teatro e circo. Utilizei minhas experiências como palhaço e clown para propor um mergulho no universo circense. Encontrei no palhaço esse caminho, e foi nesse momento que surgiu meu principal aparato pedagógico. A possibilidade de errar. Errem. Errem de novo, até errarem melhor.

Esse discurso possui sua base em dar aos jovens liberdade para criar, pensar e fazer. A criatividade emerge a todo momento, mas muitos de nós bloqueamos por estarmos presos as ideais de ser bom e ruim, certo e errado. O palhaço não pensa por esse lado. Ele mergulha no ridículo, no espírito da criança e brinca. Brinca muito!

Os alunos absorveram isso de uma maneira rápida e natural, a aula ganhou um status de diversão, mas diversão séria, onde eles deveriam errar e brincar, mas sempre produzindo cenas, esquetes e potencializando os conceitos trabalhados de concentração, escuta, voz e corpo.

Eu não me atento aqui a descrever de maneira metodológica os exercícios que utilizei. Repito que não utilizo formatos e sim formas. Essas formas começam com conversas, exercícios de aquecimento, jogos teatrais e circenses, em seguida, construções de cenas e números.

A cada nova aula coisas surgiam, novos desejos e novas criações. Eu conheci um pouco mais afundo de cada um, e fui instrumentalizando eles. Se um aluno tem grande empatia pela música, fui ajudá-lo a desenvolver isso. Se uma aluna tem empatia por dança fui ajudá-la a desenvolver isso. O teatro entra para somar, agregar e ampliar as possibilidades artísticas dos alunos.

Na última aula apresentamos cenas curtas. O objetivo era fazer. Antes de buscarmos rigor e qualidade técnica, estamos à procura do amor, afeto e desejo pela arte. Para minha surpresa eles preparam uma homenagem. Sem eu saber eles ensaiavam no centro da juventude uma mostra final. Um conjunto de cenas que imitava minhas aulas de forma cômica e divertida. Com direito a música e leitura dramática de uma linda carta que fui presenteado.

Percebi que meu trabalho foi completado com sucesso. Em um tempo tão curto, com possibilidades tão grandes, ver o amor desses jovens pelas aulas, as mensagens e as conversas em roda no final que sempre caminhavam para “eu aprendi a ver um mundo de um jeito diferente com você”, “hoje eu gosto mais de teatro”, “eu não queria que acabasse”, demonstram que meu papel como professor é criar pontes de afeto, de olhar e de desejo pela arte, criação e pela vida.

Espero que esse estilo de projeto se intensifique, ganhe mais forma e vida. Pois eu estive lá e percebi como experiências assim podem transformar o mundo e a vida dos jovens.

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